A Música dos "Expectantes"

Desde que começamos a pesquisar para o espetáculo Expectantes, me pergunto, o que nós queremos realizar, de fato, sonoramente.

John Cage, sem dúvida, é um mestre.

Tentamos o aleatório, com palavras. Palavras ao vento, falar sem parar, sem pensar, deixar os pensamentos fluírem em forma de palavras. É difícil, a mente bloqueia. Tentamos fazer o mesmo, usando diálogos com nexo, e sem nexo, com rima e sem rima.

Partimos para a musicalidade. Jogo de palavras com rima e ritmo: cada jogador joga uma bolinha para o outro e a cada lance, uma palavra, um diálogo de bolinhas. É mais difícil pensar rápido ou talvez, não pensar. O não pensar é o mais difícil.

E os sons? O que são os sons?Eles estão aqui ou aí?Tudo é som e tudo é silêncio. Não há som, nem silêncio. Há ouvido. Precisamos ouvir o silêncio.Tentamos ouvi-lo muitas vezes no ensaio.

Objetos geram sons, qualquer objeto. Agora teclando no computador eu ouço um ritmo e um som.Plásticos, bolinhas, papel, realejo, instrumentos musicais, chão, corpo, respiração, voz, tudo é musica.

Começamos a criar a nossa música.

Tem ritmo ou não? Tom ou é atonal? Não importa, pois não podemos pensar, não podemos ficar presos a nenhuma convenção, ou então como vamos ser sinceros com a música que toca dentro de nós?

Dentro do nosso corpo ouvem-se vários sons .Mesmo numa câmera anecóica, John Cage, ouviu o seu coração e ele disse:

"As razões para a abertura da mente à música são diversas. Em primeiro lugar: as atividades, as batalhas vencidas por muitos compositores. (...) Uma segunda razão para essa abertura: mudanças na tecnologia associada à música. Considerando os gravadores, sintetizadores, aparelhos de som e computadores que temos, não poderia ser razoável esperar que mantivéssemos as nossas mentes fixas na música dos séculos anteriores, apesar de muitas escolas, conservatórios e críticos musicais ainda fazerem isso. Uma terceira razão para a abertura: a interpenetração de culturas antes separadas”.

Nós da Companhia de atores Invisíveis tentamos usar o aleatório, na mais pura essência. Deixamos ele cantar por nós. Acreditamos mais nele do que em nossas razões.

Quando Cage começou a comparar a sua música com o I Ching, ele estava jogando a musicalidade ao acaso, e é isso que nós estamos tentando fazer. O que vem antes do nada?

Os ensaios continuaram: jogos de partituras corporais se uniam a partituras sonoras.

Um exercício de Dario Fo nos veio bem a calhar: escolhemos uma pose e um outro jogador ficaria escondido, sem saber que pose seria essa. Quando o jogador voltasse, tentaríamos, todos juntos, através de sons, fazê-lo chegar a essa pose. Muitas dificuldades. Não sabíamos nos ouvir e convencionar os nossos sons. Às vezes um som ahh!(isso sempre segundo o nosso mestre Oida) pode fazer uma pessoa ir pra cima. E nós não percebíamos que se todos nós fizéssemos juntos o som ahh! Conseguiríamos que o jogador ficasse de pé.

O mesmo aconteceu em outro exercício: ficamos ouvindo o silencio íamos começas a cantar com ele, ele é quem daria o tom da música. Muitas vezes nos precipitamos e não deixamos o silencio cantar.

Dois jogadores. Gesto 1, gesto 2 e gesto 3. Para cada gesto, um som. Era um jogo de pergunta e resposta de sons. O jogo ficava mais interessante quando os jogadores incorporavam os seus sons aos sons do outro jogador.

A respiração também é muito esquecida na música e ela pode fazer muito mais.

Em cena um gesto de puxar um punhal pode ser diferente dependendo da respiração: podemos puxar o punhal e inspirar, cravar e expirar e teremos uma leitura, se fizermos ao contrário teremos outra leitura do mesmo gesto.Porque não aplicar isso na nossa musica?

A cena “O antes” de “Expectantes” foi baseada nesse treinamento: eu e marcela cantamos usando a respiração de Márcio e Jorge como pulsação, visualmente, Tiago, se movimenta também junto com essa mesma pulsação, temos a música visual. A dança. Os sons falam mais por nós do que podemos supor.

Segundo o nosso mestre Oida, temos um gráfico de sensações. A vogal “a” nos dá a sensação de ir pra cima, a vogal “o”nos dá sensação pra frente/cima, “e” frente /baixo e “i” baixo.Eu, depois de todas as pesquisas incluí o som “u” pra trás. Sim os sons podem ser pra trás. Podemos falar mentalizando a projeção de vários pontos diferentes do corpo.

Vendo uma palestra de Roberta Carreri, atriz do Odin Teatret, pude comprovar o que nós já vínhamos exercitando, na prática. Ela demonstrou com maestria, como diferenciar o timbre vocal, através da projeção diferenciada: voz de cabeça, voz de nuca, voz de peito, voz de pé, de sexo. Cada voz traz uma imagem e um timbre diferente.

Objetos geram sons, qualquer objeto. Agora teclando no computador eu ouço um ritmo e um som.Plásticos, bolinhas, papel, realejo, instrumentos musicais, chão, corpo, respiração, voz, tudo é musica.

Começamos a criar a nossa música. A música invisível.

"Posso ensinar um ator a apontar para a Lua.
Entre a ponta de seu dedo e a Lua, contudo, é sua responsabilidade.

A questão é: o público viu a Lua?"

Yoshi Oida

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