O Invisível OIDA
Publicado por Kátia Jórgensen
A partir dos ensinamentos de Oida do livro”O ator invisível” , de Yoshi Oida , nasceu a Cia de Atores Invisíveis. Fundada pelo ator e diretor Márcio Moreira e pela atriz e diretora musical Kátia Jórgensen, a Cia, tem o objetivo de pesquisar e descobrir uma linguagem própria que defina o que é ser um ator “Neutro”.
Para Yoshi Oida o ator deve dar lugar a personagem de modo que o ator de torne “invisível”. Segundo ele , o importante não é notarmos a virtuose do ator em cena . O ideal seria simplesmente embarcarmos na história que é contada em um espetáculo , sem pararmos para analisar: “Puxa como esse ator é bom”!Deveríamos esquecer que diante de nós existe um ator.
Oida tem uma frase de um mestre Japonês que descreve bem esse sentimento:
“Posso ensinar a um jovem ator o movimento de apontar a lua, porém entre a ponta de seu dedo e a lua , a responsabilidade é dele”. E ele mesmo completa: - “O mais importante para mim é : será que o público viu a lua?”
Quando nós , os fundadores da Cia de Atores Invisíveis lemos o ator Invisível , sabíamos que jamais voltaríamos a sermos os mesmos. Diante de todos os conselhos e definições sobre ética , honra ( elementos tão esquecidos hoje em dia) e também técnicas teatrais , encontramos nosso lar e nossa história.
A primeira história contada no livro “O ator Invisível” por Oida diz o seguinte:
“No Japão , quando eu era criança, os filmes de ninja eram extremamente populares, sobretudo entre as crianças. Como muitos dos meus colegas, eu adorava aqueles filmes…guerreiros Ninja podiam escalar uma pedra escarpada ou engatinha, no teto, de cabeça para baixo. Eles andavam sobre as águas e , sempre que quisessem, ficavam invisíveis…Evidentemente nenhuma das explicações lógicas para essas proezas apareciam nos filmes…Mesmo quando eu já tinha idade suficiente para a escola, continuava enfeitiçado por aqueles filmes, de maneira que chegava a dizer para a minha mãe que eu queria ser um ninja. Na realidade eu queria era desaparecer de maneira mágica!Insisti tanto naquilo que , finalmente minha mãe saiu com um solução. Ela fez um saco de tecido preto, que me deu dizendo:”este é um segredo mágico dos ninjas” Imeditamente me cobri com o saco e agachei no chão. Minha mãe exclamou:”Cadê o Yoshi? Para que lado ele foi?”
Eu estava absolutamente extasiado com a minha habilidade em tornar-me invisível e pensei: “Agora sou um ninja de verdade” Então livrei-me daquele engenho preto e de repente “reapareci”. Minha mãe boquiaberta disse:”Oh Yoshi! Você está aqui! Como é que não te vi?” Alguma semanas depois, uma das amigas de minha mãe deu um pulinho em casa para fazer uma visita. Imediatamente me escondi no saco mágico de ninja, de modo que minha mãe bradou , como fazia. “Yoshi sumiu! Cadê ele?” Sua amiga apontou para o saco. “Ele está ali dentro!”. Naquele instante entendi o que vinha acontecendo e explodi em lágrimas , berrando:”Esse saco mágico é uma porcaria!”depois disso desisiti de ser Ninja..”
Yoshi passou depois pela fase das perucas e maquiagens para se tornar irreconhecível.
Brincava de ser outras pessoas e se deu conta de que todos aqueles artifícios eram somente uma nova versão do “saco mágico” que sua mãe fizera. Eram um modo de ele sumir diante das pessoas em vez de representar para elas . Através das máscaras, Yoshi se tornava “invisível”
Quis escrever essa história pois a considero a declaração de amor mais linda ao teatro que já ouvi falar.
Enquanto como atores, aprendemos que devemos “aparecer” em cena, Yoshi vem e nos mostra sabiamente, que o mais bonito é a generosidade de “desaparecer” !!!
“Ame a arte em você mesmo e não você mesmo na arte”
Constantin Stanislavski
SOBRE YOSHI OIDA
Oida é ator da Cia de Peter Brook, considerado atualmente um dos grandes diretores de teatro no mundo.
Oida começou a fazer teatro no Japão e chegou a ser incentivado a desistir pelos mestres do Kabuki e do Nô , mas sua persistência fez com que ele continuasse tentando . Participou de espetáculos e seriados no Japão e foi então em Abril de 68 que ele decidiu ir para Paris suprir as necessidades do Diretor do teatro de Odeon Jean-Luis Barrault. Foi neste Festival organizado por Barrault que Peter Brook Diretor da Royal Shakespeare Company convidou Yoshi para fazer parte de seu grupo e experimentos com atores vindos de várias partes do mundo.
Yoshi começou a fazer parte de um novo tipo de teatro , até então para ele desconhecido. Improvisos ( já que no Nô e Kabuki , os atores trabalham basicamente com “Katás”) e textos em outras línguas deixaram o ator um pouco perdido , mas aos poucos ele foi percebendo que o mais importante não era aprender o fazer teatral ocidental e sim acrescentar a ele os milenares ensinamentos da arte oriental.
A partir daí, Oida começou a transmitir aos atores ocidentais , técnicas teatrais do Kyogen , do Nô do Kabuki e princípios de honra e disciplina dos Samurais.
Yoshi contribuiu e contribui até hoje com sua forma pessoal e intransferível de atuar em
peças como “A Tempestade” , “The man Who” ambas dirigidas por Brook e filmes como
“ The Pillow Book” dirigido por Peter Greenway e “Wasabi” dirigido por Luc Besson .



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