Para me tornar atriz tenho que me tornar um ser humano.
Publicado por Kátia Jórgensen
Esta é a frase que não me sai da cabeça desde que decidi tentar ser uma atriz invisível. Preciso de um espelho para me olhar por dentro, e saber quem eu sou. É difícil encontrar as verdades em mim, as mentiras. Não sei quem sou o tempo todo. Mas sei que sou alguém que erra, acerta, inveja, admira, ama, odeia, deseja,despreza … Estou começando a gostar de me enxergar!Não quero mais ser perfeita! Quero ser eu. Pois só assim, posso almejar ser atriz , na essência da profissão.
Quero ser Iago! Então preciso lembrar de todas as vezes que desejei mal a alguém e quis derrubar o outro. Quero ser Lady Macbeth! Então preciso recordar de todos os momentos em que usei o sexo para manipular e conseguir o que eu queria. Quero ser Hamlet! Então penso em quando tive que fazer escolhas para ganhar alguma coisa, mesmo que fosse uma medíocre vingança que não me levaria a nada. Quero se Julieta! Então devo voltar no tempo e agir como quando era uma garotinha inconseqüente que achava que o mundo ia acabar amanhã. Quero ser Sra Fierling! Mas só posso ser se me recordar de todas as vezes que minha mãe foi egoísta e só pensou nela e como eu também serei quando for mãe.
Mas para ser Lady, também tenho que saber o que é amar alguém e o que é dar a vida a uma pessoa. Para ser Iago tenho que saber o que é se sentir injustiçado na vida e sofrer por não ter o que queria. Para viver Julieta tenho que reviver a pureza e a bondade de quem é ingênuo. Para ser a “mãe coragem” tenho que reconhecer todos os sacrifícios que minha mãe fez por mim e tudo o que passou para me criar, assim como eu também vou passar para criar meus filhos. Para se Hamlet tenho que ser e não ser…Tenho tudo dentro de mim. Posso ser o que eu quiser, e por isso quero atuar. Poder falar dos sentimentos que ocultamos, ficar escondidinha atrás da personagem e mandar ver!
Essa vaidade é a mais difícil de se desvencilhar : a projeção de deuses que fazemos de nós mesmos…
Acho que hoje penso assim: se não estiver não palco, jamais poderei acreditar novamente em mim…aprendi com Edith Piaf!
O Ator e a Energia Vital:
Publicado por Márcio Moreira
Existe, sem dúvida, dentro de cada um de nós, algo que nos move. Algo que nos impulsiona, que determina com qual energia executamos nossas ações. É fato que não temos a mesma disposição emocional e física todos os dias. Isso pode variar de um dia pro outro, de uma hora pra outra ou até mesmo de um minuto pro outro. Porém, existe uma coerência entre essas variações. Existem pessoas que se movimentam de maneira mais rápida, andam mais depressa, ou seja, executam suas ações com um maior dinamismo, com mais energia. Outras, porém, fazem tudo de maneira mais lenta; precisam de mais tempo para realizar determinadas tarefas físicas.
Podemos observar algumas características físicas para saber o nível de energia vital de cada um. O tônus do corpo, por exemplo, é apenas o reflexo dessa energia.
Uma pessoa com um tônus flácido, invariavelmente, indica uma baixa potência e vice - versa. Portanto, através de uma pesquisa pessoal, devemos descobrir quais exercícios são mais adequados para o nosso equilíbrio.
Ter consciência da sua própria energia vital é um passo muito importante para o ator.
Conhecer as possibilidades de interação com essa força são determinantes para a construção de qualquer personagem.
Ator: ser ou não ser?
Publicado por Kátia Jórgensen

A profissão de ator é algo que necessita de extremo empenho e dedicação.
Muitos atores ainda se perguntam porque escolheram esse destino para suas vidas.
Porém, o que deveriam se perguntar é: o por quê de não escolherem? Será que algum dia de suas vidas, a idéia de ser outra coisa, que não artista, lhes foi agradável?
“Nascemos” atores.
Digo “nascemos” porque a sensibilidade e a emoção são inerentes ao ser humano.
Quando somos crianças já mostramos nossa propensão ás artes. Nas brincadeiras, no corpo, na imaginação, na voz…
Arte não se aprende, arte não se ensina.
O mais difícil é entender pra quê ser ator numa fase tão imediatista do mundo. Quem ainda tem paciência de sair de casa (já que temos TV) para ir ao teatro assistir 75 minutos de pessoas reais?
Qual é a função do teatro?
Qual é a função do amor?
Às vezes, como atores, podemos nos perguntar que maluquice estamos fazendo.
Porque nos dedicamos tanto a passar um ano inteiro de ensaios, construção de cenário, figurino, produção? Isso tudo para no fim das contas revelar 1 hora de espetáculo!
Um ano para 1 hora apenas.
Armar um circo inteiro, movimentar 10, 20 ou mais profissionais para fingirmos que somos outras pessoas em outras vidas e ainda existir quem pague para assistir pode parecer insano.
Mas não é.
Um mestre, grande professor e diretor David Herman , disse certa vez, em uma de suas aulas…”Nunca chegue atrasado à um ensaio por causa de 5 choppinhos que você tomou na noite anterior: esse choppinho amanhã já terá se apagado da sua memória, porém, a vergonha que você vai passar, na estréia do seu espetáculo (por não ter se dedicado o bastante) , jamais sairá da sua lembrança”
Atores são, na verdade, como crianças brincando de criar uma nova realidade.
Mas a criança está cada vez mais adormecida dentro de nós. Nietzsche dizia: “A maturidade do homem consiste em haver reencontrado a seriedade que tinha no jogo quando era criança”.
Por que deixamos a sinceridade de lado?
Será que não somos nós quem escolhemos fazer teatro? É o teatro quem nos escolhe!
A natureza invisível da escolha…
O ator presente: Viver x Vivenciar
Publicado por Márcio Moreira
Muitos atores alimentam, por algum motivo, a idéia de que quando estão em cena o mundo pára. Tudo pode acontecer à sua volta e nada é visto nem ouvido. O ator entra num estado catártico no qual só as ações pré-estabelecidas no ensaio são executadas; não estou com isso defendendo uma prática de improvisações que subvertam o trabalho construído no processo criativo pelo ator e o diretor. É mais simples: o ator deve estar, de fato, presente em cena.

Não observar que um objeto caiu, ou ignorar um estrondo durante um espetáculo faz com que a cena se torne inverossímil.
O que propomos na Cia de Atores Invisíveis durante nossos treinamentos improvisacionais, é que estejamos presentes, de fato. O ator vivo em cena é o personagem vivo em cena. Precisamos ver e ouvir de verdade e não fingir que vemos e ouvimos. Estar presente significa executar a ação de modo completo e verdadeiro. Se o personagem escuta o desabafo de outro, o ator deve escutar de verdade.
Tentar representar o “ouvir”, por exemplo, cria um teatro de inverossimilhanças. O trabalho deve ser construído a partir de nossos sentidos verdadeiros. O estado presente auxilia toda a técnica e todo o ensaio feito anteriormente. Obviamente tudo isso tem um limite. No caso de um personagem que se suicida, é claro que não faremos a ação propriamente dita de maneira verdadeira (se não, só a faríamos um vez). Algumas vezes o ator gasta muito tempo tentando representar e se detém muito pouco ao que está acontecendo de verdade. No caso da cena de suicídio, tudo que a envolve, até o ato ápice, pode ser feito de maneira presente. O que propomos em nosso treinamento é o pleno jogo com o outro e com o meio.
Viver um personagem não é o mesmo que vivenciá-lo. Viver pressupõe uma realidade que não existe no teatro. Viver, nós só podemos viver as nossas vidas, mas as vidas das personagens, nós temos que vivenciar. Ou seja, agir como se estivéssemos naquela situação, e contra agir como se vivêssemos aquele momento. A contra-ação é aquilo que a personagem faria e conseqüentemente você, como ator, (depois de muitos ensaios e de testar muitas ações físicas), vai fazer. Reação é aquilo que você faria se estivesse na situação da personagem, portanto nem sempre as nossas reações servem como contra-ações das personagens que estamos trabalhando. A vivência se baseia nisso: agirmos de tal forma natural que pareça sermos nós mesmos naquela situação. E isso inclui não só as ações como a forma de falar, andar e gesticular. Precisamos que essa personalidade reverbere em nosso corpo de forma verdadeira e de tal modo que o público acredite que existe alguém ali e que, esse alguém não é o ator que o está interpretando.
Acreditamos num teatro de vivência. Queremos interpretar e não representar.
Construindo um Ator para Construir um Personagem
Publicado por Kátia Jórgensen
Depois de termos tido contato com o livro “O ator Invisível” de Oida, começamos a tentar entender do que se tratava , afinal, ser um “ator invisível”. Nosso primeiro entendimento da expressão, hoje , podemos perceber o quanto foi rasa. Levamos em consideração somente as questões éticas e morais como: vaidade , orgulho , ego…

Ser um ator invisível não significa se desprender somente da presunção, mas se agarrar com unhas e dentes à técnicas que nos libertem da famosa “emoção”, a que nós atores aprendemos a nos escravizar. Não existe decepção maior para o ator iniciante do que falar a ele: - “quem tem que se emocionar é o público, não o ator!” É muito difícil para o artista se desprender de certos tabus como “emoção”.
A sensibilidade para o artista é como a inteligência para o cientista, porém, o ator não pode somente contar com ela. O artista não é um extra-terrestre ou ser especial que tem o dom de controlar suas emoções a cada apresentação de um temporada. A emoção pode vir (e será muito bem vinda) e pode não vir! E é justamente neste dia que o ator precisa ter o instrumental correto para auxiliá-lo em cena.
Chorar por exemplo, é visto como uma das coisas mais difíceis para um ator. Porém , rir é tão difícil quanto chorar ou constatar , observar, contestar, seduzir e qualquer outra ação. Ou seja, tudo o que se faz é uma ação e ela precisa ser repetida a cada espetáculo. Uma cena de choro pode ser repetida a cada dia com a mesma intensidade desde que o ator descubra no corpo dele , o que o faz chegar a tal ponto. Se é contrair os músculos das mãos ou se é relaxando totalmente os músculos da face. Deve existir uma partitura física para cada ação. Por isso , o ator não pode se garantir apenas em “psicologismos” ou “subtextos”.
O subtexto pode nos levar ao exagero e aos truques que usamos quando sentimos que não estamos alcançando a “emoção” da personagem. Por exemplo: a personagem precisa, naquela cena, fazer com que o outro personagem não vá embora. Para isso , o ator precisa estudar como vai usar a ação “implorar”. Se ele ficar somente pensando”eu tenho que fazer essa pessoa ficar, ela não pode ir embora, eu a amo e etc…” provavelmente começarão a surgir muitas caretas e demonstrações de interpretação Esses recursos são muito arriscados, pois eles partem exclusivamente e somente do material humano que há em cada um. Cada dia é um dia diferente: hoje o ator pode conseguir atingir uma emoção X e chegar às lágrimas por estar passando por um momento difícil em sua vida particular. Mas e no dia seguinte quando este problema estiver resolvido? Ele terá que ter um problema a cada dia para se sair bem naquela cena?


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