O Ator Santo e o Ator Invisível
Publicado por Márcio Moreira
A importância de Jerzy Grotowski para o entendimento da ética do ator é fundamental. Em sua construção sobre o conceito de um “Ator Santo” podemos perceber o quanto que, para ele, Grotowski, o ofício do ator pode ser levado a instâncias muito mais profundas. Sua percepção do teatro como muito mais do que uma manifestação artística fez com que as possibilidades de um teatro antropológico se desenvolvessem como nunca. O teatro do ponto de vista de um encontro entre pessoas, pode parecer em princípio simplificar a questão, porém se esse encontro é visto de forma exacerbadamente humana, podemos começar a entender o porque Grotowski nos últimos anos de sua vida dedicou-se a pesquisas que transcendiam ao teatro. O encontro entre os atores, entre os atores e o público, entre os homens, esse sutil, sempre definitivo encontro, passou a ser o cerne de sua rica pesquisa. Pra mim, a contribuição que esse mestre trouxe para a ética do ator, pra importância desse ofício, pra essa visão quase sacerdotal que devemos ter é a característica que mais me atinge. No trabalho que desenvolvo dentro da Cia de Atores Invisíveis esses conceitos Grotowskianos são imprescindíveis. O trabalho do ator deve ser o resultado do mais alto grau de entrega possível, da descoberta das verdades internas dos homens-atores,sem espaço para máscaras e convenções. Porém chegar nesse estágio não é algo simples e requer em primeiro lugar o trabalho estável com os mesmos atores por um longo período de tempo. Esse tempo duradouro é que possibilita que pouco a pouco através de nossa preparação e treinamento possamos quebrar as couraças que naturalmente acumulamos durante a vida. Esse nível de revelação é na maioria das vezes muito dolorido. Todas as vezes que nos vemos no espelho queremos via de regra ver uma bela imagem, porém certos ambientes bem iluminados fazem com que os espelhos revelem os detalhes de nossa imagem que não nos agradam. É ruim, desagradável, ver os detalhes imperfeitos de nossa face. Ter contato com nossas questões essenciais é um mergulho dentro do imenso mar de lama e nuvem, de dor e gozo, de pétala e espinho que inerentemente existe em nossa alma.
Assim como propunha Grotowski eu creio em um teatro atrelado a disciplina, a busca da maior sinceridade que esses homens-atores podem alcançar. Ser um ator invisível assim como ser um ator santo deve ser um ato de total entrega e amor. Não existe espaço para o burocrático, para o “não deu tempo”, para o “estive ocupado”. Essa é a exigência. Essa é a regra. Precisamos das regras. Até para que possamos subvertê-las quando necessário. Assim como diz Peter Brook: “Nunca acreditei em verdades únicas. Nem nas minhas, nem nas dos outros. Acredito que todas as escolas, todas as teorias podem ser úteis em algum lugar, num dado momento. Mas descobri que é impossível viver sem uma apaixonada e absoluta identificação com um ponto de vista. No entanto, à medida que o tempo passa, e nós mudamos, e o mundo se modifica, os alvos variam e o ponto de vista se desloca. Num retrospecto de muitos anos de ensaios publicados e idéias proferidas em vários lugares, em tantas ocasiões diferentes, uma coisa me impressiona por sua consistência. Para que um ponto de vista seja útil, temos que assumi-lo totalmente e defendê-lo até a morte. Mas, ao mesmo tempo, uma voz interior nos sussurra: Não o leve muito a sério. Mantenha-o firmemente, abandone-o sem constrangimento”. Então assim é Cia de Atores Invisíveis.
Eu quero acreditar
Publicado por Márcio Moreira
Um espaço é apenas um espaço. Pode ser utilizado pra ser qualquer coisa. Uma sala vazia pode ser utilizada como quisermos, até mesmo como uma sala vazia. O que importa é o valor que atribuímos a ela . Os templos religiosos são locais sagrados porque os fiéis acreditam que eles o são. O valor das coisas está na nossa crença . A utilização de determinado espaço está diretamente ligada ao valor que atribuímos à ele. Nossa casa, por exemplo, é sempre um lugar especial, onde colocamos nossas coisas, nossas energias , nossa vida. Nós escolhemos o destino dos espaços.
O fazer teatral está sempre atrelado a ocupação de um espaço . Esse espaço pode ser qualquer um : um elevador , o vagão de um trem, uma quadra, uma praça pública e até mesmo um teatro. A gama de possibilidades é incontável. Muitas pesquisas e experimentos já foram feitos à esse respeito. Diversos pensadores e encenadores já propuseram infinitas possibilidades de ocupação de espaços.
Pra nós, da Cia de Atores Invisíveis, os espaços que vamos utilizar ( seja lá pra ensaios ou apresentações) estão diretamente ligados ao valor que damos ao exercício do nosso ofício, portanto ,devem se tornar especiais. Um espaço vazio pode se tornar especial. Devemos escolhê-lo com cautela. Todos os detalhes dele, inclusive seu tamanho ,devem estar a serviço da prática. Esse espaço deve ser “preparado”. Antes de qualquer atividade (ensaios,
Mas assim como no caso dos templos religiosos , temos que querer acreditar. Nós ,da Cia de Atores Invisíveis, queremos acreditar.


