O ator Invisível e a concentração fluida:
Publicado por Márcio Moreira
Um dos pilares mais importantes dentro do trabalho dos Invisíveis é o aprimoramento da concentração. Ela nos serve de base fundamental tanto para o momento de criação artística (processo) quanto nos espetáculos, em que tentamos ao máximo permanecer no estado de jogo. Desde o início de nossos trabalhos (lá na fundação da companhia) queríamos aprofundar ao máximo nossas questões, queríamos sempre ir no limite das nossas possibilidades, chegar às impossibilidades. Não é possível ir tão fundo de forma displicente e desconcentrada. Era necessário desenvolver uma técnica de concentração que desse conta disso. No entanto a prática da busca por uma concentração ideal nos revelou a diferença entre uma concentração rígida na qual inicialmente fomos em direção e uma outra fluída.
Na primeira, (rígida) invariavelmente, os resultados acabam sendo prejudiciais para o trabalho a que nos propomos a realizar, pois nos leva ao um estado de antijogo. O ator fica voltado somente para ele mesmo e se torna incapaz de perceber detalhes importantíssimos a sua volta. Além do mais, como o próprio nome (dado por nós) diz, essa “rigidez” para o trabalho artístico é quase paralisante. A mente e o corpo rígidos não podem, definitivamente, produzir arte. A mente acaba escravizando o ator que fica refém das suas próprias limitações. Ele está tão “concentrado” que tenta jogar sozinho. E sozinho definitivamente não há jogo.
Chegamos então na descoberta de uma possibilidade de concentração que se tornou nosso foco: busca incansável para nós. Essa tal, classificada por nós de fluída, permite um estado de prontidão necessário para o desenvolvimento de nossas atividades. Esse estado de prontidão é o mesmo encontrado em um gato, por exemplo. Deitado preguiçosamente ele se mantém em pleno estado de alerta. Qualquer ruído ou movimentação ameaçadores e o animal está com o corpo totalmente pronto para fugir ou, se precisar, se defende Enfim, reagir. Nosso ritual para inicialização de qualquer atividade (treinamento, ensaio ou espetáculo) consiste em um primeiro momento na recitação, em grupo, de um mantra budista (sem nenhum caráter religioso) visando uma conexão dos componentes. Em seguida vem a preparação do espaço que vamos utilizar através de um balde de água limpa e panos que passamos minuciosamente no chão - tal qual a prática oriental aprendida pelos ensinamentos de Yoshi Oida. Esse início nos proporciona um estado de concentração muito importante.
Diante dessa concentração constatamos que o silêncio é muito importante. O velho ditado: ”Temos dois ouvidos e uma boca justamente para ouvir mais do que falamos” começou a ser aplicado. A falação excessiva se torna inimiga dos treinamentos e conseqüentemente do nosso processo de criação artística que se baseia na construção de uma dramartugia através de improvisações*. Quando procuramos ativar todos os nossos sentidos, criamos uma conexão com os outros e com o meio. Quando falamos o necessário ampliamos nossa capacidade de percepção. Essa observância se tornou mais um item bastante relevante para o desenvolvimento de nossa técnica.
Perante todas as nossas observações, com o passar do tempo, fomos percebendo que em virtude da pesquisa de concentração fluida, o nosso foco durante as atividades, passou a ser cada vez maior nos levando a um estado de prontidão tão indispensável para esse teatro que queremos fazer.
*Em breve texto sobre a criação de nossa dramaturgia.
2 Respostas para “O ator Invisível e a concentração fluida:”
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Julho 29th, 2008 - 5:58 am
Impressionante! Fantástico!
Vocês possuem algum material, artigo, livro que leram e acharam legal, alguma indicação de jogo, etc que possam me passar para o aprimoramento da concentração?
Como vocês mesmos citaram no artigo, a atenção é super importante, mas é preciso saber lidar com ela.
Meu e-mail está ai, se puderem, por favor me ajudem!
Forte abraço e parabéns pelo trabalho!
PS: O que mais vocês usam para o aprimoramento da concentração?
Agosto 23rd, 2008 - 2:10 am
Queridos, foi exatamente por isso e para isso que aceitei o convite para adentrar nesta cia, teem sido dias muito felizes de trabalho e aprendizado.
Certamente não estamos nessa por dinheiro e sim pela nossa propria criação, acredito que quando um artista cria, cria a si mesmo, isso, infinitamente infinito.
Diante deste desafio de concentração fluída estarei prontamente, pois acredito, sempre, que somente em estado de criação podemos tornar visível nosso trabalho invisível. Estamos juntos e espero poder dizer isso nos proximo 5 anos, pelo menos. Abraços