O ator presente: viver x vivenciar
Publicado por Márcio Moreira
Muitos atores alimentam, por algum motivo, a idéia de que quando estão em cena o mundo pára. Tudo pode acontecer à sua volta e nada é visto nem ouvido. O ator entra num estado catártico no qual só as ações pré-estabelecidas no ensaio são executadas; não estou com isso defendendo uma prática de improvisações que subvertam o trabalho construído no processo criativo pelo ator e o diretor. É mais simples: o ator deve estar, de fato, presente em cena.
Não observar que um objeto caiu, ou ignorar um estrondo durante um espetáculo faz com que a cena se torne inverossímil.
O que propomos na Cia de Atores Invisíveis durante nossos treinamentos improvisacionais, é que estejamos presentes, de fato. O ator vivo em cena é o personagem vivo em cena. Precisamos ver e ouvir de verdade e não fingir que vemos e ouvimos. Estar presente significa executar a ação de modo completo e verdadeiro. Se o personagem escuta o desabafo de outro, o ator deve escutar de verdade.
Tentar representar o “ouvir”, por exemplo, cria um teatro de inverossimilhanças. O trabalho deve ser construído a partir de nossos sentidos verdadeiros. O estado presente auxilia toda a técnica e todo o ensaio feito anteriormente. Obviamente tudo isso tem um limite. No caso de um personagem que se suicida, é claro que não faremos a ação propriamente dita de maneira verdadeira (se não, só a faríamos um vez). Algumas vezes o ator gasta muito tempo tentando representar e se detém muito pouco ao que está acontecendo de verdade. No caso da cena de suicídio, tudo que a envolve, até o ato ápice, pode ser feito de maneira presente. O que propomos em nosso treinamento é o pleno jogo com o outro e com o meio.
Viver um personagem não é o mesmo que vivenciá-lo. Viver pressupõe uma realidade que não existe no teatro. Viver, nós só podemos viver as nossas vidas, mas as vidas das personagens, nós temos que vivenciar. Ou seja, agir como se estivéssemos naquela situação, e contra agir como se vivêssemos aquele momento. A contra-ação é aquilo que a personagem faria e conseqüentemente você, como ator, (depois de muitos ensaios e de testar muitas ações físicas), vai fazer. Reação é aquilo que você faria se estivesse na situação da personagem, portanto nem sempre as nossas reações servem como contra-ações das personagens que estamos trabalhando. A vivencia se baseia nisso: agirmos de tal forma natural que pareça sermos nós mesmos naquela situação. E isso inclui não só as ações como a forma de falar, andar e gesticular. Precisamos que essa personalidade reverbere em nosso corpo de forma verdadeira e de tal modo que o público acredite que existe alguém ali e que, esse alguém não é o ator que o está interpretando.
Acreditamos num teatro de vivencia. Queremos interpretar e não representar.
Uma Resposta para “O ator presente: viver x vivenciar”
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Agosto 23rd, 2008 - 2:26 am
Amigo e diretor querido.
Adoro este trabalho de presentificação, está é minha busca incansável… O teatro de Rua me levou neste sentido, na Rua, escrevo Rua com letra maísculo para demonstrar meu respeito por este palco, não há tempo para piscologismos preciosos ou falsos, é preciso ganhar a salva, o público é ao mesmo tempo aliado e inimigo.
A improvisação refinada, destas em que o obejtivo e contar um historia juntos, tambem colabora muito para que estejamos sempre alertas, isso tem sido otimo.
O corpo, ou o conhecimento, auto conhecimento do corpo, no sentido do dentro, do fora, do fora fora e do dentro dentro, ou seja, o corpo no espaço, o espaço do corpo, o corpo corpos no espaço e o espaço no espaço dos corpos. Essa escuta refinada somente o trabalho e o desejo infinito pode nos proporcionar. Neste sentido é que quero me aprofundar no que acredito ser util para nossa composição. o viwpoints é um tecnica que pode colaborar muito neste sentido. Estamos juntos