Eu quero acreditar
Publicado por Márcio Moreira
Um espaço é apenas um espaço. Pode ser utilizado pra ser qualquer coisa. Uma sala vazia pode ser utilizada como quisermos, até mesmo como uma sala vazia. O que importa é o valor que atribuímos a ela . Os templos religiosos são locais sagrados porque os fiéis acreditam que eles o são. O valor das coisas está na nossa crença . A utilização de determinado espaço está diretamente ligada ao valor que atribuímos à ele. Nossa casa, por exemplo, é sempre um lugar especial, onde colocamos nossas coisas, nossas energias , nossa vida. Nós escolhemos o destino dos espaços.
O fazer teatral está sempre atrelado a ocupação de um espaço . Esse espaço pode ser qualquer um : um elevador , o vagão de um trem, uma quadra, uma praça pública e até mesmo um teatro. A gama de possibilidades é incontável. Muitas pesquisas e experimentos já foram feitos à esse respeito. Diversos pensadores e encenadores já propuseram infinitas possibilidades de ocupação de espaços.
Pra nós, da Cia de Atores Invisíveis, os espaços que vamos utilizar ( seja lá pra ensaios ou apresentações) estão diretamente ligados ao valor que damos ao exercício do nosso ofício, portanto ,devem se tornar especiais. Um espaço vazio pode se tornar especial. Devemos escolhê-lo com cautela. Todos os detalhes dele, inclusive seu tamanho ,devem estar a serviço da prática. Esse espaço deve ser “preparado”. Antes de qualquer atividade (ensaios,
Mas assim como no caso dos templos religiosos , temos que querer acreditar. Nós ,da Cia de Atores Invisíveis, queremos acreditar.
ToBeAndNotTobe
Publicado por Kátia Jórgensen
Hoje sei que uma personagem não se cria, se vive.
Estou passando por uma experiência fantástica: viver uma personagem que jamais imaginei fazer e, ao mesmo tempo, secretamente sempre achei que podia fazê-la por algum motivo.
A busca pelo corpo e pela respiração dessa personagem me faz pensar que somos todos feitos de ar, num corpo cheio de espaços vazios, prontos para serem preenchidos com sons e imagens.
O ator invisível tem que ser vazio.
Tive que fazer uma cena para apresentar ao grupo.
Ensaiei e pela primeira vez não me cobrei, (claro que não muito rsrsr) mas deixei o ar fluir dentro de mim. Através de tantos jogos, exercícios corporais, improvisacionais, pesquisas de Kabuki e Noh, eu tive a sensação de que quando expirava, todos os ensinamentos nasciam de dentro da mim e saiam através da personagem - por isso é tão importante a pesquisa , a leitura. Elas nos preenchem de vida e de ações. Viver uma personagem depende do que você tem a oferecer a ela.
A pesquisa de energia invisível da Cia tem aparecido pra mim de uma forma reveladora. Quanto mais eu descubro o que tem no meu vazio mais eu posso preencher com a energia da personagem e assim eu passo para a etapa seguinte: manipular as duas energias.
Ainda nem cheguei perto…
O que eu quero é que apareça só a energia dela.
O resto é silêncio…
Oficina Teatro do Absurdo
Publicado por Kátia Jórgensen
ETLA - RUA CORRÊA DUTRA 99,SL 218, CATETE, ao lado do metrô
tel 22056371
OFICINA DE TEATRO COM OS INVISÍVEIS
Publicado por Kátia Jórgensen
Iniciaremos nova turma da oficina “O ator Neutro”
com o diretor da Cia de Atores Invisíves , Márcio Moreira.
Valor da oficina:
mensalidade 80,00
quintas de 19:40 às 21:40
Duração: 3 meses
Local: Fundição Progresso
Rua dos Arcos, 24, Lapa
www.fundicaoprogresso.com.br
Para concluir a oficina,
haverá uma pequena apresentação , na Fundição Progresso.
Somente 20 vagas!!!
ATENÇÃO:
Quem quiser fazer a pré-matrícula pela internet, para garantir sua vaga,
preencha este formulário e mande de volta para o e-mail atoresinvisiveis@gmail.com ,anexando o comprovante de pagamento no valor de 20 reais.
PODE SER DEPÓSITO BANCÁRIO OU TRANSFERÊNCIA ON LINE.
Dados bancários:
Banco:HSBC
conta:46558-35
agência :1018
cpf:07200362751
Márcio Gomes Moreira
abacaxi
Publicado por Kátia Jórgensen
quando me perco , me perco.
que bom.
não quero me encontrar.
quero te achar.
em qualquer lugar.
em cena , sou ela.
quem eu mais queria ser.
em cena, sou dela.
quem eu mais queria ter.
será que vou conseguir?
que bom.
como é bom ter medo…
é bom ser.
o corpo já não responde mais.
a cabeça não me obedece.
os sentidos se perderam de mim.
tudo está tão claro que não posso enxergar.
é tão difícil ser.
que bom.
sempre pensei que fosse fácil.
como fui tola!
agora não posso me esconder.
estou entre dois mundos.
quero viver nos dois.
que bom.
você já teve duas cabeças?
como saio de mim sem te perder?
você já teve asas?
sinto cheiro de abacaxi.
que bom ser…
atriz.
O ator Invisível e a concentração fluida:
Publicado por Márcio Moreira
Um dos pilares mais importantes dentro do trabalho dos Invisíveis é o aprimoramento da concentração. Ela nos serve de base fundamental tanto para o momento de criação artística (processo) quanto nos espetáculos, em que tentamos ao máximo permanecer no estado de jogo. Desde o início de nossos trabalhos (lá na fundação da companhia) queríamos aprofundar ao máximo nossas questões, queríamos sempre ir no limite das nossas possibilidades, chegar às impossibilidades. Não é possível ir tão fundo de forma displicente e desconcentrada. Era necessário desenvolver uma técnica de concentração que desse conta disso. No entanto a prática da busca por uma concentração ideal nos revelou a diferença entre uma concentração rígida na qual inicialmente fomos em direção e uma outra fluída.
Na primeira, (rígida) invariavelmente, os resultados acabam sendo prejudiciais para o trabalho a que nos propomos a realizar, pois nos leva ao um estado de antijogo. O ator fica voltado somente para ele mesmo e se torna incapaz de perceber detalhes importantíssimos a sua volta. Além do mais, como o próprio nome (dado por nós) diz, essa “rigidez” para o trabalho artístico é quase paralisante. A mente e o corpo rígidos não podem, definitivamente, produzir arte. A mente acaba escravizando o ator que fica refém das suas próprias limitações. Ele está tão “concentrado” que tenta jogar sozinho. E sozinho definitivamente não há jogo.
Chegamos então na descoberta de uma possibilidade de concentração que se tornou nosso foco: busca incansável para nós. Essa tal, classificada por nós de fluída, permite um estado de prontidão necessário para o desenvolvimento de nossas atividades. Esse estado de prontidão é o mesmo encontrado em um gato, por exemplo. Deitado preguiçosamente ele se mantém em pleno estado de alerta. Qualquer ruído ou movimentação ameaçadores e o animal está com o corpo totalmente pronto para fugir ou, se precisar, se defende Enfim, reagir. Nosso ritual para inicialização de qualquer atividade (treinamento, ensaio ou espetáculo) consiste em um primeiro momento na recitação, em grupo, de um mantra budista (sem nenhum caráter religioso) visando uma conexão dos componentes. Em seguida vem a preparação do espaço que vamos utilizar através de um balde de água limpa e panos que passamos minuciosamente no chão - tal qual a prática oriental aprendida pelos ensinamentos de Yoshi Oida. Esse início nos proporciona um estado de concentração muito importante.
Diante dessa concentração constatamos que o silêncio é muito importante. O velho ditado: ”Temos dois ouvidos e uma boca justamente para ouvir mais do que falamos” começou a ser aplicado. A falação excessiva se torna inimiga dos treinamentos e conseqüentemente do nosso processo de criação artística que se baseia na construção de uma dramartugia através de improvisações*. Quando procuramos ativar todos os nossos sentidos, criamos uma conexão com os outros e com o meio. Quando falamos o necessário ampliamos nossa capacidade de percepção. Essa observância se tornou mais um item bastante relevante para o desenvolvimento de nossa técnica.
Perante todas as nossas observações, com o passar do tempo, fomos percebendo que em virtude da pesquisa de concentração fluida, o nosso foco durante as atividades, passou a ser cada vez maior nos levando a um estado de prontidão tão indispensável para esse teatro que queremos fazer.
*Em breve texto sobre a criação de nossa dramaturgia.
O ator presente: viver x vivenciar
Publicado por Márcio Moreira
Muitos atores alimentam, por algum motivo, a idéia de que quando estão em cena o mundo pára. Tudo pode acontecer à sua volta e nada é visto nem ouvido. O ator entra num estado catártico no qual só as ações pré-estabelecidas no ensaio são executadas; não estou com isso defendendo uma prática de improvisações que subvertam o trabalho construído no processo criativo pelo ator e o diretor. É mais simples: o ator deve estar, de fato, presente em cena.
Não observar que um objeto caiu, ou ignorar um estrondo durante um espetáculo faz com que a cena se torne inverossímil.
O que propomos na Cia de Atores Invisíveis durante nossos treinamentos improvisacionais, é que estejamos presentes, de fato. O ator vivo em cena é o personagem vivo em cena. Precisamos ver e ouvir de verdade e não fingir que vemos e ouvimos. Estar presente significa executar a ação de modo completo e verdadeiro. Se o personagem escuta o desabafo de outro, o ator deve escutar de verdade.
Tentar representar o “ouvir”, por exemplo, cria um teatro de inverossimilhanças. O trabalho deve ser construído a partir de nossos sentidos verdadeiros. O estado presente auxilia toda a técnica e todo o ensaio feito anteriormente. Obviamente tudo isso tem um limite. No caso de um personagem que se suicida, é claro que não faremos a ação propriamente dita de maneira verdadeira (se não, só a faríamos um vez). Algumas vezes o ator gasta muito tempo tentando representar e se detém muito pouco ao que está acontecendo de verdade. No caso da cena de suicídio, tudo que a envolve, até o ato ápice, pode ser feito de maneira presente. O que propomos em nosso treinamento é o pleno jogo com o outro e com o meio.
Viver um personagem não é o mesmo que vivenciá-lo. Viver pressupõe uma realidade que não existe no teatro. Viver, nós só podemos viver as nossas vidas, mas as vidas das personagens, nós temos que vivenciar. Ou seja, agir como se estivéssemos naquela situação, e contra agir como se vivêssemos aquele momento. A contra-ação é aquilo que a personagem faria e conseqüentemente você, como ator, (depois de muitos ensaios e de testar muitas ações físicas), vai fazer. Reação é aquilo que você faria se estivesse na situação da personagem, portanto nem sempre as nossas reações servem como contra-ações das personagens que estamos trabalhando. A vivencia se baseia nisso: agirmos de tal forma natural que pareça sermos nós mesmos naquela situação. E isso inclui não só as ações como a forma de falar, andar e gesticular. Precisamos que essa personalidade reverbere em nosso corpo de forma verdadeira e de tal modo que o público acredite que existe alguém ali e que, esse alguém não é o ator que o está interpretando.
Acreditamos num teatro de vivencia. Queremos interpretar e não representar.
ep.5 A Trajetória de dois Atores
Publicado por Bruno Accioly
Há tantos por aí e sua história, se contada nos palcos, daria um sem número de peças de teatro…
Jorge Leite e Tiago Quites são entrevistados por Márcio Moreira e Kátia Jórgensen, com a presença de Bruno Accioly e contam um pouco de sua trajetória além de falar sobre talento vs. formação acadêmica, patrocínio e apoio, utilitarismo, Yoshi Oida e teatro como elemento modificador do ser.
Episódio 5
(58min)
Se você deseja baixar os segmentos para o seu MP3Player, fique à vontade para usar o botão direito de seu mouse sobre os links a seguir e selecionar a opção “Salvar Destino Como…”:
Para me tornar atriz tenho que me tornar um ser humano.
Publicado por Kátia Jórgensen
Esta é a frase que não me sai da cabeça desde que decidi tentar ser uma atriz invisível. Preciso de um espelho para me olhar por dentro, e saber quem eu sou. É difícil encontrar as verdades em mim, as mentiras. Não sei quem sou o tempo todo. Mas sei que sou alguém que erra, acerta, inveja, admira, ama, odeia, deseja,despreza … Estou começando a gostar de me enxergar!Não quero mais ser perfeita! Quero ser eu. Pois só assim, posso almejar ser atriz , na essência da profissão.
Quero ser Iago! Então preciso lembrar de todas as vezes que desejei mal a alguém e quis derrubar o outro. Quero ser Lady Macbeth! Então preciso recordar de todos os momentos em que usei o sexo para manipular e conseguir o que eu queria. Quero ser Hamlet! Então penso em quando tive que fazer escolhas para ganhar alguma coisa, mesmo que fosse uma medíocre vingança que não me levaria a nada. Quero se Julieta! Então devo voltar no tempo e agir como quando era uma garotinha inconseqüente que achava que o mundo ia acabar amanhã. Quero ser Sra Fierling! Mas só posso ser se me recordar de todas as vezes que minha mãe foi egoísta e só pensou nela e como eu também serei quando for mãe.
Mas para ser Lady, também tenho que saber o que é amar alguém e o que é dar a vida a uma pessoa. Para ser Iago tenho que saber o que é se sentir injustiçado na vida e sofrer por não ter o que queria. Para viver Julieta tenho que reviver a pureza e a bondade de quem é ingênuo. Para ser a “mãe coragem” tenho que reconhecer todos os sacrifícios que minha mãe fez por mim e tudo o que passou para me criar, assim como eu também vou passar para criar meus filhos. Para se Hamlet tenho que ser e não ser…Tenho tudo dentro de mim. Posso ser o que eu quiser, e por isso quero atuar. Poder falar dos sentimentos que ocultamos, ficar escondidinha atrás da personagem e mandar ver!
Essa vaidade é a mais difícil de se desvencilhar : a projeção de deuses que fazemos de nós mesmos…
Acho que hoje penso assim: se não estiver não palco, jamais poderei acreditar novamente em mim…aprendi com Edith Piaf!
Teatro de Arma Zen
Publicado por Márcio Moreira
Fomos assistir (duas vezes! Por enquanto…) ao espetáculo “Mãe coragem e seus filhos” de Bertold Brecht com a Armazém Cia de Teatro, em cartaz no CCBB , no Rio. E diante do que vimos, resolvemos publicar aqui no Luz & Sombra , uma resenha sobre o novo espetáculo de Paulo de Moraes.
Já de primeira, nos deparamos com uma detalhada pesquisa sobre a linguagem brechtiana. Desde a música de espera que quase soa como “música de consultório”, (imediatamente nos remetendo á idéia de que vamos assistir a uma peça de teatro que ainda não começou) até a interpretação dos atores.
A maquinaria á vista, a atriz, em cena, operando o refletor, os atores atrás da carroça se preparando para a próxima cena refletidos por um gigantesco espelho, nos revela uma crua realidade através da posição de espectadores e são também frutos do cuidado com a pesquisa sobre Brecht.
A luz de Maneco está, como deve ser, totalmente a serviço da concepção crua que desmistifica, que rompe com a catarse, enfim, desvenda poeticamente a arte do iluminador. O cenário de Paulo de Moraes e de Carla Berri além do fantástico espelho, também traz uma leitura genuína da carroça na qual Sra Fierling carrega seu filhos: uma enorme carcaça estilizada (mais um elemento do distanciamento) de um avião de guerra. O avião é o tempo todo deslocado pelo espaço cênico aos olhos do público, assim como todas as mudanças de cena sem o recurso do black-out - uma mostra clara do entrosamento luz-cenário-direção.
Todos os atores, como sempre, estão totalmente imbuídos do sentimento brechtiniano e “armazeniano”. Sempre com a mesma visceralidade e sensibilidade para nos emocionar com pequenos detalhes. Simone Mazzer está fantástica. Ela consegue em seu solo musical exprimir tudo o que deveria ser feito quando um ator canta em cena. A atriz apenas empresta a voz e deixa o resto por conta da personagem. Sérgio Medeiros consegue nos mostrar além de um personagem cômico, um cidadão da guerra. Com passagens excelentes, ele rouba a cena em vários momentos numa dobradinha maravilhosa com Louise Cardoso. Thales como o açougueiro, consegue evoluir de maneira sensível e mostrar as modificações que seu personagem sofre no decorrer da história. Com destaque para a brilhante atuação na canção emocionada que executa. Patrícia Selonk é mais uma vez um plus do espetáculo…Aos poucos ela vai cativando o espectador que, começa a se perceber refém de sua interpretação ímpar - sempre com ações físicas inesperadas e originais. A construção da personagem Katrin é impressionante. Louise Cardoso, como Sra Fierling, emociona em vários momentos e nos mostra uma generosidade tamanha na tentativa, bem sucedida, de acompanhar o ritmo tão peculiar da Armazém Cia de Teatro.
A direção magistral de Paulo de Moraes é a prova de que não existem limites para o seu trabalho de criação. Cuidadoso e inteligente, como sempre, Paulo confirma sinais visíveis de maturidade artística. Temos a oportunidade de assistir a uma direção que consegue dar a devida relevância a cada elemento cênico de maneira proporcional, nos dando a chance de apreciar um espetáculo, em sua totalidade.
“Mãe Coragem e seus filhos” é um espetáculo no qual vamos pra casa com um nó na garganta impedindo-nos de expressar o que sentimos pela gigantesca torrente de sentimentos em que nos sentimos mergulhados. É para ficar para sempre na memória…
(por Márcio Moreira e Kátia Jórgensen)
e para quem quiser … o site da Armazém Cia de Teatro é:





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